Aprendeu com a leitura que as palavras sempre ficam, e com a escrita o poder de eternizar o arrebatamento das idéias. Assim, talhado no esmero que têm os que se aventuram a trilhar no caminho laborioso do escriba, colhe entre as palavras as que melhor lhe parecem traduzir as experiências que o cotidiano lhe inspira, e divide com seus amigos as singelas linhas que se seguem de O Lusco Fusco.
Aquele tempo seria sempre lembrado como nos dias de verão quando acordamos na primeira manhã depois da viagem, em uma casa de férias de algum lugar tranqüilo, onde parece que podemos tocar a felicidade.
Mesmo quando a luminosidade do dia se vai, e mesmo sem o calor do sol, algo ainda mais envolvente que a brisa do fim do dia aparece-nos e enche-nos desse misterioso elixir de completude.
Assim foi quando se viram, pararam nesse instante em que o corpo se enche de um fabuloso coquetel, e os sentimentos se confundem levando quase a uma overdose. Não deixaram de se olhar nenhum instante – ou pelo torpor, ou talvez por medo de que pudessem se perder. A verdade é que nada, nem todos em volta, poderiam furtá-los um ao outro.
Os dias passavam, ela, sempre sozinha, timidamente, se aproximava e sorria-lhe confidente como de costume. Quando estavam longe, o olhava e parecia mesmo que o admirava. Ele segurava-se para manter-se firme em seus olhos, mas desistia sempre que se lhe parecia demasiada afronta aos encantos da jovem desconhecida que tanto lhe dizia sem ainda ter-lhe dito uma palavra.
Cortejavam-se com cautela como se o mundo conspirasse contra o que sentiam, que era evidente desde a primeira vez que se viram. Latente e pulsante, mas aprisionado aos poucos de uma forma tão intimamente irrevelável que nem mesmo qualquer um deles poderia explicar, ou mesmo entender.
Nada lhe pesava, sentia-se até confortável em tal situação que ambos jamais viveram. Porém, o olhar dela carregava-se um pouco com o passar do tempo, e cada dia mais. Parecia que algo a cansava. Mesmo assim mantinha-se fiel buscando os olhos dele.
Resolveu falar-lhe, trocaram algumas palavras, poucas e tímidas, que revelaram quase nada comparadas ao que diziam quando seus olhos estavam um no do outro. Aquilo que tinham era de certa forma, mesmo, um ao outro.
Sempre ia vê-la, ainda que às vezes ela não estivesse lá. O recebia sorrindo de longe, aumentando assim a cumplicidade, e se permitiam um discreto “oi”, quase inaudível.
Pensava em tudo isso voltando pela rua sozinho e molhando-se na chuva que não pôde esperar passar. Em seu quarto, observando as gotas que escorriam pela janela, e sentindo as que corriam por seu rosto, buscava entender o significado do que vivera. O raio de sol que lhe inspirava os dias pedira por algo que ele não poderia mais dar, morrera dois dias atrás. Partiu, mas disse-lhe o que nenhuma palavra pôde explicar. Estava entendido, sempre, em seu olhar.
Jamais a teria, sabia. Não mais do que as horas que passaram juntos, nem além do último beijo, ou mesmo depois do demorado adeus quando, aquecidos pelas mãos que perdiam-se pelo corpo que estremecia de prazer, ainda sentiam o profundo toque do músico desvendando os harmoniosos acordes da secreta canção.
Acompanhavam-se ritmicamente em um vibratto que de legato mezzo-forte tornava-se em staccato fortíssimo, para enfim resurgir em um leve e envolvente arpejo que, deslizando entre as sinuosas curvas, inspirava o improviso daquele toque que juntava-os ainda mais.
A chuva que caindo, molhava-os, parecia-lhes como o arranjo da orquestra, e seus beijos completavam as vibrantes notas da elaborada partitura tocada a quatro mãos.
Tinham todo o tempo do mundo, mas a figura de maior valor era o agora, e não furtar-se-iam a beleza daquela elaboradíssima canção. Clave de sol e fá compondo, simultaneamente, em melodia, ritmo e harmonia.
Contudo, foi uma peça rápida, sem nenhum rascunho para posteridade, exceto pela lembrança que teriam dos acordes das pautas feitas sem nenhum rittornello, – sentenciando-os a nunca voltarem em ponto algum –, e encerrando-se com barra dupla, onde saber-se-ia: fim.
Envolveram-se na balada eterna que se executa apenas uma vez, e acabaram em um beijo o amor que viveram naquela noite que escondera seus medos, encobrira suas desilusões, e trouxera-lhes um pouco do refrigério das brumas, que ocultando os segredos da alma revelava as quimeras dos prazeres encontrados nos braços dos amantes solitários.
O deslumbre da eternidade que cruzou o céu iluminando o globo como o raio da inspiração não brilhou com tanta intensidade nos dois hemisférios e, quando tudo acabou, depois de se olharem, “adeus”.Ela voltou para quem acostumara-se a amar, e ele para a vida que o conduziu, como maestro, em outras composições. Mas sempre lembrar-se-ia daquela que despertara-lhe os acordes que se fazem com os arrepios da pele e os suspiros da alma.
Adentrando o recinto logo a percebera. Quem não notaria na singeleza de tão refinados traços a beleza do corte suave da ternura perpassando as almas dos que a fitam em tão pungente beleza. A tez leve com o talho da perfeição criava naquele ser-mulher a indizível imagem afroditiana capaz mesmo de levar um Olimpo a resignar-se por completo.
Seguiam-na os olhares dos enamorados rendidos de sua altivez aviltada pelos olhos negros de ninfa, implacáveis em imprimir nas almas soberbas o simulacro do abismo que os levava sem forças à vertigem impetuosa da paixão. Algoz dos amantes aventureiros dissipava-os como a névoa ao encontrar-se com a brisa da manhã revestida dos raios do sol, mas que guardavam uma ingenuidade capaz de inspirar o mais varonil dos sentimentos.
Buscava-a, também, o seu olhar, que ao encontrar-se com o dela rendia-se, e como nunca antes questionara aos campos de como brotava-se-lhes os belos lírios, nem aos astros de seus harmoniosos encantamentos noturnos, afeiçoou-se, tão somente, entregando-se. Havia naqueles sinuosos traços da voluptuosa formosura, unindo-se aos meigos olhos negros de ninfa, algo mitológico lembrando os mistérios consagrados aos olimpianos pelas epopéias helênicas da criação.
Estando ao lado dela, nada dissera, mesmo que ela quisesse, mesmo que o tivesse procurado. Nada havia nele para dizer que já não houvesse dito em seu olhar de arrebatamento. Preferiu abster-se abdicando daquela que, adentrando-o, tomara posse - vassalo das intempéries romanescas que acabrunhavam-lhe o espírito - e deu-se-lhe ao fim, antítese de seus sonhos, deixando-a no intocável monte, de onde viera.
Dir-se-ia, facilmente, que, então, não eram legítimos seus sentimentos! Mas ao contrário, tão fortes eram que procurava, tão somente, eternizá-los na virgindade das primeiras sensações, sem querer sacrificá-los nos efêmeros gozos que se olvidam facilmente.
Despercebidamente, mas decidido entrou. Olhou tudo ao redor, e tudo o atraiu. Os cheiros, as texturas, os produtos. A desordem o excitou em um misto inexplicável de fetiche e compreensão.
As pessoas sentavam-se em bancos bem juntos, caminhavam acotovelando-se pelos corredores estreitados, e negociavam preço cruzando os caminhos, ou simplesmente passavam aumentando ainda mais sua percepção do frenético movimento que se confundia com as impressões em sua mente pelas sensações das coisas que via.
Tudo que as pessoas de tantas gerações deixaram. Seus sabores, suas ervas e cura, suas roupas, suas crenças imbuídas no mais puro e latente, com um pouco de grito e sussurro, de suas culturas.
Nem se sentia ali. O local pareceu-lhe atemporal! Assim, resumia bem aquele fim de tarde, turvado pela embriaguez da profusão iconográfica que se criava como uma galeria montando-se em sua mente, cujos desenhos aos poucos ganham forma.
Via, sentia e ouvia, mais do que em qualquer outro momento, o que uma pessoa de qualquer outro tempo pôde, da mesma forma, mas com menos apreço, viver.
De súbito foi tomado por um vazio a percorrer-lhe o ser, imaginando-se perder tanto da vida em esvaziar-se dela pela participação passiva de sua existência.
Agora, menos despercebido do que decidido, saiu. Carregava consigo a certeza de deixar para trás não somente o que um viajante apaixonado em terras distantes percebe, mas o simulacro da vida e das relações sociais com a sensação de pertencimento, fora do tempo e do espaço, pelo simples fato de ter entrado na feira local. Porém, desta vez, tocou, como um músico faz com a antiga canção, dando a ela mais uma vez vida e razão.
Ao pintar o seu quadro, A feira, entendia para sempre, que as continuidades do seu pincelar uniam-se, por fim, as descontinuidades do seu olhar.
Despedia-se em poucas palavras sendo vago quanto ao local e com quem estaria. Atrás a porta fechava-se para a solidão que a convivência rotineira trazia, mesmo morando com sua família.
Apreciava sua cidade e, à sua forma, com ela interagia.
Não lhe atraía, precisamente, saber que as cidades eram planejadas e que existiam sempre locais centrais de encontros urbanos, onde os indivíduos – mesmo que não queiram – se encontram. Buscava-a sempre mais como um refúgio e menos como um local de rendez-vous. Mesmo assim, fizera desses espaços seu refúgio preferido, ainda que para quem o conhecesse soasse contraditória dizê-lo. Não se importava, não pensava fazê-lo.
Marcava ali encontros consigo mesmo. Sentia-se imperceptível ante todos os rostos desconhecidos os quais, provavelmente, jamais tornaria a ver. Fixava então, constantemente, morada no infinito onde os seres e as coisas pertencem somente a si mesmos.
Aquele refúgio fincado na multiplicidade que o contemplava como sem se importar, o atraía com suas ruelas e boulevards sempre estética e culturalmente indecifráveis. Ele com ela interagia de um modo peculiar tornando tudo aquilo menos uma grande polis e mais, de forma singular, o seu próprio lar.
A tarde movia-se, cada vez menos clara, e o lusco-fusco dava uma visão ampliada da profusão de possibilidades que a vida, sob essa leve perspectiva, lhe trazia.
Sentou-se junto a uma praça e a noite o envolveu como já fizera, com ele e tantos outros, muitas outras vezes...
[ * Conto baseado na tese histórica segundo a qual a figura do caminhante solitário surge em Paris no Século XVIII durante o Iluminismo. Daí o uso de algumas palavras em francês (também por predileção!). Levando-se em consideração o surgimento das cidades gregas,polis, tomo emprestado o termo para fazer uma refência às cidades modernas, onde é comum encontrar pessoas caminhando pelas ruas só pelo prazer de entrar em contato com a vida urbana. Dois grandes filósos francêses defenderam o caminhante solitário, Jean-Jacques Rousseau: "A caminhada aviva minhas idéias", afirmou, e Dinis Diderot ]
Sentou-se e olhou sua lista de amigos, mas o que realmente queria, na noite fria que fazia, não encontraria. Conversou com alguns e continuou naquela nostalgia durante a madrugada.
Quando o dia amanheceu, lutou mais uma vez contra a vontade de permanecer embaixo do cobertor, afinal de contas – pensou – deitara-se tão tarde.
No caminho para a rotina diária, passou pela rua de sua infância e de repente o vento trouxe-lhe um cheiro peculiar. O ar estava úmido, aquele era o cheiro de sua infância! Reconhecera. Suspirou, e em sua mente veio todos os bons momentos que vivera naquele pedacinho de mundo, só uma rua onde, antes, reunia o mundo todo.
As casas eram as mesmas, as árvores também. Na rua havia inclusive crianças brincando. Sentou-se no chão e o vento o cobriu como em um abraço forte aquecendo ainda mais a memória para tudo que deixara, em outro tempo, ali.
Faltava-lhe alguma coisa, pensou...
A vida lhe trouxera novos pedacinhos de mundo agora, novas ruas das quais sente falta e pessoas que não existem mais, a não ser quando o vento traz o cheiro delas e daqueles momentos inesquecíveis.
Legendagem feita por mim em português do discurso do senador Barack Obama, nas prévias para candidatura à Casa Branca em New Hampshire, transformado em música pelo integrante e fundador do grupo Black Eyed Peas, wiil.i.am.
Fala-se da semelhança de Obama com Martin Luther King, líder americano na luta contra o racismo pelos direitos de igualdade dos negros e dono de um notável discurso de não-violência. King foi assassinado e integra hoje o rol das mais ilustres figuras americanas, tendo até mesmo um feriado em memória ao seu legado de luta e liberdade.
Obama lembra-me King por dois motivos, primeiro pelo bom uso da retórica em seus discursos e segundo pelo convite à mobilização social no processo de reconstrução ético-histórico-moral dos Estados Unidos.
Elementos constitutivos da cultura americana encontram-se fortemente em seus discursos, e compõem o tema central de sua campanha de renovação do espírito de mudança e determinismo de seu país.
Vale lembrar, não obstante todas as possíveis críticas ao viés imperialista estadunidense em sua campanha, Obama é um candidato empolgante com um discurso persuasivo que vai ao encontro dos desejos de milhões de americanos saturados com George Bush e sua herança de guerra, partidarismo, lobbies, esquecimento ecológico e tirania em nome do petróleo.
Seu discurso surge não apenas como alternativa ao desgastado presidente Bush e seu partido, mas principalmente como a vanguarda da busca dos “direitos inalienáveis” à vida, à liberdade, e à busca da felicidade que se tornaram mais uma aspiração moral perdida no tempo e que sempre resurge muito viva no imaginário coletivo americano.